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Allan dos Santos: Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é



O “acuse-os do que você faz” nunca foi tão pedagogicamente compreensível como agora, em meio às ações inconstitucionais do Supremo Tribunal Federal (STF).

A afirmação é de Allan dos Santos. Durante o Boletim da Manhã desta terça-feira (15), o jornalista traçou um paralelo entre a revolução russa e o atual cenário brasileiro.

De acordo com Allan, os deputados que estão no inquérito inconstitucional do Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não entenderam que foram usados de exemplo para toda a sociedade e o recado foi claro: não ousem questionar nossas decisões. Só nós podemos decidir o que é melhor para o povo.

Confira abaixo o que disse o jornalista.

Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é

Segundo Alvaro Bianchi e Daniela Mussi, Gramsci escrevia seus artigos na imprensa socialista para desafiar a cultura católica italiana.

Ele escreveu no Il Grido Del Popolo (“O Grito do Povo”) e a colaborava com a edição piemontesa do jornal Avanti! (“Avante!”). No Avanti!, alguns artigos que cobriam a Revolução Russa eram assinados por “Junior”, um agente comunista cujo real nome era Vasilij Vasilevich Suchomlin.

O jornal não escondia sua intenção e Gramsci chamava o deputado italiano Oddino Morgari de “embaixador vermelho”. Como Gramsci não pôde ir para a guerra, o jornalismo transformou-se em sua “frente”.

No seu artigo sobre Morgari, Gramsci citava favoravelmente uma declaração dos socialistas-revolucionários russos, publicada na Itália pelo Corriere Della Sera, já em favor dos revolucionários.

O “defensismo revolucionário”, adotado pelos jornais da época, era uma resolução da conferência pan-russa dos sovietes. Depois do Corriere, o Avanti! iria reproduzir a mesma resolução por meio do agente “Junior”. A imprensa era a arma da informação.

É com ele que se inaugura uma nova interpretação da revolução russa: para Gramsci, a revolução russa era muito diferente do modelo jacobino, visto como uma mera “revolução burguesa”. Ao interpretar os eventos de Petrogrado, Gramsci expôs um programa para o futuro.

Assim, os socialistas russos deveriam, de acordo com Gramsci, romper definitivamente com o modelo jacobino – identificado aqui com o uso sistemático da violência e com a baixa atividade cultural.

Gramsci insistia que a revolução não podia ser interrompida e que deveria superar o mundo burguês. para o jornalista do Il Grido Del Popolo, o maior risco das revoluções, especialmente da russa, era o desenvolvimento da percepção de que o processo tinha chegado ao fim.

A totalidade do processo revolucionário estava encadeada e era impulsionada nesse movimento: os mais fortes e mais determinados conseguiriam arrastar os mais fracos e mais confusos, e essa força eram os maximalistas. Gramsci cobriu a manifestação em frente à Casa Del Popolo, onde quarenta mil pessoas deram as boas-vindas à Revolução

Russa e no varandim da casa, Giacinto Menotti Serrati, o então líder da ala maximalista dentro do partido, traduziu o discurso de Goldemberg.

Gramsci relatou entusiasticamente esse comício com os delegados russos da revolução no Il Grido Del Popolo. A manifestação promoveu, na sua opinião, um verdadeiro “espetáculo das forças proletárias e socialistas em solidariedade com a Rússia revolucionária”.

Dias depois, quando quase todas as fábricas haviam parado, uma multidão de revolucionários começou a marchar pela cidade, saqueando padarias e depósitos. A insurreição fora promovida pelos agentes russos na Itália com a ajuda dos jornais.

Após prisões e algumas mortes em decorrência da ação militar de Turim em resposta ao vandalismo dos agentes russos na Itália, Gramsci escreve que Lênin era o “agitador das consciências, o despertador das almas adormecidas”, tentando manter acesa a chama revolucionária.

No jornal Critica Sociale, Turati e Treves (dois parlamentares socialistas) publicaram um artigo que afirmava “a necessidade de o proletariado defender o seu país em momentos de perigo”. Convocaram uma reunião secreta em Florença para planejar mais atos revolucionários.

Gramsci participou da reunião na condição de representante. No encontro, alinhou-se com aqueles que defendiam a necessidade de agir de forma militante, como Amadeo Bordiga, enquanto Serrati e outros. Falaram da necessidade de manter a velha tática neutralista.

Gramsci interpretou os eventos em Turim sob a luz da Revolução Russa e, após ter voltado da reunião, estava convencido de que o momento exigia ação. animado por esse otimismo, escreveu um artigo chamado “La Rivoluzione Contro ‘Il Capitale’” (“A Revolução Contra o ‘Capital’”).

Nesse artigo, Gramsci declarava que “a revolução bolchevique definitivamente era a continuação da revolução geral do povo russo”.

Mais adiante, escreveria Gramsci, que o capital, na Rússia, era “o livro da burguesia e não dos operários”. Pela sua íntima e irresistível força cultural, a revolução dos bolcheviques “era baseada mais em ideologias do que em fatos”. Por essa razão, a Revolução Russa não poderia ser lida seguindo à risca “a letra de Marx”. Gramsci passa a criticar os russos.

De acordo com Gramsci, os revolucionários sob a liderança de Lênin “não eram marxistas” no sentido estrito do termo.

Ainda que não recusassem o “pensamento imanente” de Marx, “renegavam algumas das afirmações do capital” e recusavam-se a tomá-lo como uma “doutrinazinha exterior, cheia de afirmações dogmáticas e frases indiscutíveis”. Gramsci começa então a falar de uma “nova consciência”, tornando os proletários as “testemunhas presentes de um mundo futuro”.

O jovem editor do Il Grido Del Popolo tinha feito um movimento natural de aproximação com a fórmula de Trotsky de revolução permanente. Gramsci viu em Lênin e nos bolcheviques a encarnação de um programa de renovação de uma revolução ininterrupta.

Nos seus Cadernos no Cárcere, Gramsci construiu uma teoria da política na qual a força e o consenso não são elementos separados e na qual o Estado é concebido como “o poder onipresente e invisível de um imperativo categórico”. Ele deu atenção especial para o papel – segundo os comunistas, quase sempre destrutivo – dos intelectuais na vida popular e sobre a importância de avançar no marxismo enquanto visão de mundo integral: não deixar um intelectual falar com o povo.

A Revolução Russa como uma referência histórica e programática para a “emancipação da classe trabalhadora” permaneceu viva na mente de Gramsci até a sua morte. Hoje ela ecoa por meios quase incontáveis.

E por que falar disso agora?

Os deputados que estão no inquérito inconstitucional do Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não entenderam que foram usados de exemplo para toda a sociedade e o recado foi claro: não ousem questionar nossas decisões. Só nós podemos decidir o que é melhor para o povo.

Quem se submeter a elas, será para sempre escravo dos revolucionários. Não somos nós quem devemos satisfação de nosso patriotismo, mas os autores desses dois inquéritos inconstitucionais que devem satisfações à sociedade.

São esses tiranetes que precisam explicar ao povo por que soltam Lula, impedem a Polícia Militar de agir contra o crime e o mais grave de tudo isso: por que estão fora da cadeia.

Assista à íntegra da análise no Boletim da Manhã:

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