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Economista Ubiratan Iorio analisa a atual situação econômica do Brasil



Em entrevista ao Terça Livre nesta sexta-feira (14), o economista Ubiratan Iorio analisou a situação econômica atual do Brasil. Decano da Escola Austríaca de Economia no Brasil, Iorio também é professor e ensaísta.

Questionado sobre o panorama econômico do país quando o presidente Jair Bolsonaro assumiu o mandato, Ubiratan Iorio comparou o chefe do Executivo a um inquilino que acabou de chegar em um novo imóvel.

“Vamos imaginar que um novo inquilino tenha chegado a um imóvel que alugou e que tenha encontrado esse imóvel em um estado deplorável, lamentável, precisando de obras estruturais, inclusive, algumas até nos alicerces do prédio. O que aconteceu é que esse novo inquilino chegou ao imóvel em janeiro de 2019 e imediatamente percebeu a necessidade urgente de fazer essas reformas estruturais, coisa que nos últimos 40, 50 anos, nenhum dos inquilinos havia notado que era tão importante”, explicou.

Para o economista, nos últimos 50 anos o Brasil viveu sob uma socialdemocracia, ora enrustida — como no tempo dos tucanos — e ora declarada, inclusive com tendência ao socialismo. “Como foi naquele que eu chamo de ‘período das trevas’ que se abateu sobre o Brasil entre 2003 e 2016”, comentou.

“O novo inquilino colocou como mestre de obras, um economista genuinamente liberal, que é o ministro da economia Paulo Guedes, com quem aliás eu tive o prazer de trabalhar durante muito tempo, mais de 15 anos, no Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, portanto conheço bem o pensamento econômico dele, é um liberal verdadeiro, autêntico, como se diz hoje em dia, ele é um liberal ‘raiz'”, acrescentou o professor.

Paulo Guedes então cercou-se de auxiliares muito competentes, segundo Ubiratan.  “Ele indicou o que precisava ser feito, que são as várias reformas estruturais, da Previdência, a tributária, a desburocratização, reformas administrativas, as privatizações etc.”

“Acontece que todas essas medidas, todas essas obras, para a imensa maioria dos políticos, são impalatáveis, então as resistências, que já não eram poucas, ainda mais se tratando deste governo em particular, que é o mais atacado de toda a nossa história – acho que no mundo inteiro nunca se viu um governo ser tão atacado, caluniado, detestado (inventam coisas), como o atual governo”, pondera.

Ubiratan Iorio diz não se considerar “bolsonarista” nem seguir qualquer político. No entanto, afirma ter sido “conquistado” pelas ideias econômicas do presidente Bolsonaro, quando nomeou Paulo Guedes para a Economia.

“Tem também o lado conservador. Há 50 anos nós não tínhamos como presidente alguém com esse perfil e que preze os valores e tradições da nossa civilização judaico-cristã. Isso é fundamental, é até mais importante do que a economia. Qualquer atividade humana, não só na economia, mas em qualquer outro campo, se não for lastreada em valores morais e éticos sólidos, pode descambar para o mal”, afirmou.

Reforma da Previdência

O economista analisou ainda a reforma da previdência aprovada no Congresso e explanou sobre como resistências políticas atrasam o avanço das pautas econômicas.

“No início parecia que a obra [os planos econômicos] ia ser concretizada em uma velocidade desejada. Lembro que naquele ano as privatizações, cujo responsável era o nosso amigo Salim Mattar, estavam previstas por ele em 1 trilhão de reais com a receita das privatizações. As coisas começaram a ficar mais difíceis por conta das resistências políticas”, disse.  “É uma coisa muito óbvia, mas que muita gente não enxerga, os economistas do governo, o ministro e sua equipe econômica, eles não têm poder para fazer as reformas, para decidir quando vão ser feitas ou mesmo se vão ser feitas. Eles indicam e passam a bola para os políticos”, acrescentou.

Para Ubiratan Iorio, a reforma da Previdência não foi como deveria ter sido. “Foi aprovada, mas não como deveria ter sido, de acordo com o pensamento da equipe econômica, principalmente porque o regime — uma geração bancando a geração anterior —, que é o regime de repartição foi mantido, quando a proposta do Paulo Guedes era alterar esse regime para um regime de capitalização, em que cada cidadão, cada trabalhador, financiaria em sua vida útil de trabalho a sua própria aposentadoria, que é um modelo muito mais sustentável”, observou.

Na opinião do economista, a reforma foi “média” e ficou aquém do que deveria e poderia ter sido obtido. “Mas, mesmo assim, em 2019, que foi o primeiro ano do governo, ela foi aprovada, e certas medidas aprovadas pela equipe econômica, em um caminho correto, começavam já a dar sinais de que seriam bem sucedidas”, disse, afirmando que houve uma recuperação econômica em 2019. 

Entraves jurídicos e consequências

Outro ponto abordado pelo professor Ubiratan Iorio foi a legislação leis e sua interferência prática na economia de um país.

“O problema do Brasil é que ele já nasceu assim”, disse. “Nos Estados Unidos, primeiro chegou o povo e depois surgiu o Estado. Aqui no Brasil não, primeiramente o Estado fincou a bandeira – no caso a portuguesa, que claro, nós amamos – e depois é que veio o povo. Isso parece óbvio, mas muita gente não se dá conta de que isso influenciou toda a nossa formação histórica e principalmente política”, explicou.

“Enquanto nos EUA se privilegiou a descentralização, o federalismo, o princípio da subsidiariedade, aqui no Brasil aconteceu o oposto, os brasileiros sempre acreditaram no governo, embora de uns anos para cá os brasileiros tenham aprendido a olhar para os políticos com bastante desconfiança”, exemplificou o economista.

De acordo com Iorio, a Constituição de 1988 é um exemplo claro disso. “O Brasil teve, se não me engano, desde a primeira Constituição, de 1824, em que Dona Leopoldina e José Bonifácio tiveram um papel importantíssimo, assim como D. Pedro I, embora eu não seja da área jurídica, vejo aquela como a melhor das nossas Constituições, foi a mais liberal de todas, refletia exatamente o pensamento de José Bonifácio e de D. Pedro I. As outras Constituições foram, eu diria em termos de liberalismo econômico, sofríveis. A de 1988 é um desastre”.

Para o economista, o Brasil é refém de uma legislação complicada e cheia de meandros. “Não há dúvida de que essa Carta Magna, somada à mentalidade que ainda prevalece no Brasil, de que o Estado é nosso protetor, dificulta toda e qualquer reforma que tenha como objetivo, não reduzir a força do Estado, mas sim o tamanho, o inchaço”, disse.

“Nenhum liberal, a não ser uns malucos que existem por aí, libertários radicais, quer terminar com o Estado, ele é essencial, mas é essencial desde que nos sirva, a nós cidadãos, e não como vem acontecendo há muitos anos no Brasil que ele se sirva de nós. Estamos hoje reféns de uma Constituição e de toda uma legislação complicadíssima, parece uma floresta impenetrável, cheia de meandros”.

O ativismo jurídico, hoje, seria o maior inimigo dos brasileiros, segundo Ubiratan. “E além disso, nós temos coisas incríveis acontecendo, por exemplo, nesse espetáculo degradante que o Senado nos vêm oferecendo nesta semana em uma CPI absurda, com senadores respondendo a dezenas de processos, acusados de corrupção, ameaçando prender pessoas, coisas absurdas, dantescas. É como o pessoal mais jovem gosta de dizer, bizarras. O Brasil hoje é uma bizarrice só, e não se pode colocar a culpa nem no presidente – que é o esporte preferido do ‘time do contra’ – tudo é culpa do Bolsonaro”.

Influência da cultura marxista na economia

O professor Ubiratan também comentou sobre a influência da cultura marxista na economia. Segundo ele, a esquerda é “competentíssima” quando se trata de cultura. Entretanto, o economista afirma ter notado um aumento de interesse nas ideias liberais por parte dos jovens.

“Notei isso com muita alegria, um crescimento muito forte entre os jovens das ideias liberais em economia. Eu recebi e continuo recebendo mensagens do Brasil inteiro, até do ensino médio, pedindo orientação, ‘professor, o que eu faço, quero estudar economia, mas eu sei que na faculdade que eu quero ir tem uma orientação toda marxista ou Keynesiana, intervencionista’, eles me pedem orientação. Gente de todo o Brasil. Isso cresceu muito nos últimos anos e foi muito facilitado também pela tecnologia, pela internet, pelas redes sociais”.

“Veio essa peste da China e mostrou que muitos liberais não eram tão liberais assim como se pensava. É impressionante a quantidade de pessoas que estão ‘saindo dos armários’ de um ano para cá”, comentou.

Cultura da inveja

“O empresário brasileiro, ou o empreendedor, aquele que sonha em abrir a sua empresa e o seu negócio, antes de mais nada é um herói”, afirma o professor Ubiratan Iorio. 

“É a tributação excessiva, a complexidade da tributação, a insegurança jurídica, que é enorme. Não dá para você empreender se você olha para frente e vê uma nuvem turvando e nublando tudo com incertezas”, explicou.

Para o economista, o subdesenvolvimento do Brasil tem como uma das suas principais causas o que ele chama de “Teoria Fundamental do Subdesenvolvimento”, uma ideia de origem marxista de que “João é pobre porque Pedro é rico”.

“João pode ser uma pessoa, pode ser uma empresa, pode ser uma região, um país, um continente. Isso significa que o João só é pobre porque ele é explorado pelo Pedro, e o Pedro só é rico porque explora o João. Ora, sim, o Pedro pode ser rico porque ele explora os outros, não deixa de ser uma possibilidade, mas ele pode ser rico porque estudou muito, porque nasceu em uma família de posses, porque ele é inteligente, porque é trabalhador, empreendedor, ou até mesmo porque é um cara de sorte”, exemplificou.

“Esse é o teorema fundamental do subdesenvolvimento, e desse teorema você extrai alguns corolários, e um deles é o terrível engano de que a economia é um jogo de ‘soma zero’, onde se uns estão ganhando é porque outros estão perdendo, e isso absolutamente não corresponde à verdade”, acrescentou.

“Muita gente é criada na cultura da inveja, que é um integrante dessas ideias socialistas, você inveja o sucesso das pessoas quando o correto é que se elas obtiveram um sucesso de uma maneira lícita, legal, honesta, ética, aquele sucesso deve ser premiado, e não tributado”, disse.

Assista à íntegra da participação de Ubiratan Iorio no Boletim da Manhã:

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