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Resumo histórico do Movimento Nacionalista na década de 60 – 1ª parte



Em 1961, a renúncia de Jânio Quadros e seus desdobramentos provocaram profundas modificações políticas e sociais no Brasil como um todo, mas no Estado da Guanabara, ocorreu algo com significado muito especial e diferenciado do restante do país. Um punhado de estudantes iniciou os seus primeiros passos no sentido da compreensão e compromisso político e o fizeram sem nenhuma tutela dos velhos próceres. Em consequência desta autonomia, desembocaram naturalmente em uma adoção de postura Nacionalista. Hoje chamamos a estes  primeiros anos de “Jardim de Infância do Processo Ideológico Nacional”.

As teses e postulados não eram elaborados por escrito. Efervesciam e ao invés de passarem de mão em mão, o faziam de boca a boca. Não estarem escritas, não implicou em momento algum em perda de qualidade e originalidade, em nenhuma delas.

A falta de burocracia administrativa e teórica, não impediu que houvesse um formidável acrisolamento e uma espetacular e superior precipitação neste crisol, de um produto ideológico e doutrinário, de altíssima qualidade, que constituiu o pilar de um projeto consolidado em uma proposta operacional de:  “uma guerra em duas frentes”.

Estudantes da Seção Sul do Colégio Pedro II, assim como dos colégios Militar, Anglo-Americano, Andrews e Santo Inácio, filhos da classe média carioca, sem nenhuma orientação externa e consequentes intervenções manipuladoras, intuitivamente passaram a defender um posicionamento Nacionalista em confronto aberto com o entreguismo (como eram chamados os afeiçoados ao americanismo) tanto quanto os comunistas, que quer seguindo a linha de Moscou ou a de Pequim, pretendiam impor e implantar a “Ditadura do Proletariado”.

A inexistência de controle exterior produziu sintomas de fracionamento e contradições. Buscando inspirações no comportamento político do meio circundante, alguns tendiam a simpatizar com o Lacerdismo, enquanto outros se inclinavam mais para o Brizolismo, mas todos tinham em comum o compromisso de que a independência nacional era o bem máximo a ser preservado e que o compromisso número um de quem se propusesse a ser Nacionalista era o de não admitir a hipótese da intromissão estrangeira por mínima que fosse nas questões política brasileiras.

        Em 16 de março de 1964, houve a transferência de um quadro do movimento do Rio para Brasília. Estava sendo aberta a criação da Seção Brasília do Movimento. Os contatos foram, única e exclusivamente, nas duas primeiras semanas com estudantes ligados à esfera do comunismo. Como estava estabelecido que a seara de recrutamento só poderia ocorrer em campos até então anti-nacionais, dado ao fato de que só se conferiu status de nacionalista a quem pertencesse ao movimento em si, explicitamente, nada mais natural portanto, que semear politicamente no campo ocupado, pelos chamados esquerdistas.

No final de março apenas um único recruta havia sido obtido e com um efetivo tão esquálido, só restou, quando da eclosão do movimento contra João Goulart, acompanhar para observar e estudar a pálida movimentação de resistência, gerida pelas organizações marxistas que terminou em uma passeata na W3 Sul, que foi interrompida por rajadas de metralhadora dadas para o alto por tropas do exército que bloqueavam a via.

        Tirando um único estudante comunista que permaneceu visível em Brasília, Paulo Wagner, que pertencia ao Partidão, o restante todo escafedeu-se, havia é claro um maluco da POLOP, chamado Osvaldinho, que tinha um plano obsessivo de dinamitar a torre da Rádio Educadora, instalada no terreno do Colégio Elefante Branco, a quem ele atribuía toda a responsabilidade pela irradiação de propaganda “reacionária”.

         Paralelamente na Guanabara, havia ocorrido uma forte aproximação da resistência chefiada por Lacerda, durante os dias que envolveram o movimento militar. Isto gerou uma contradição, a aparente esquerdização do núcleo de Brasília, em paralelo a direitização da Guanabara pois o Lacerdismo ainda era visto como aliado ao Governo Federal. Por alguns meses o quadro político permaneceu difuso e confuso para o incipiente Movimento Nacionalista. Em julho de 64, impôs-se a definição: o governo castelista era entreguista e consequentemente situava-se no campo adversário ao Nacional e paralelamente os opositores comunistas também deviam ser combatidos. Estava consagrada a tese de uma guerra em duas frentes.

        No segundo semestre do ano a Seção de Brasília já havia se fortalecido tanto, que ao eclodir a crise, que envolvia o Governador de Goiás, a hegemonia obtida pelos Nacionalistas era tão grande que garantiu que a direção do que se pretendesse organizar em Brasília, envolvendo inclusive militantes de organizações marxistas como, POLOP e filos-marxistas com AP coubesse a Seção Nacionalista Brasília. Em nome da Seção e dos marxistas agregados, em resposta a um convite formulado por Mauro Borges, dois estudantes representando Brasília compareceram ao Palácio em Goiânia. Na cidade se respirava um clima de cerco. Fervia de jornalistas e o clima era marvótico , a segurança para circular era obtida por senhas, substituídas todos os dias. A que estava sendo usada no dia da conversa com Mauro Borges era Rogério. A conversa foi longa, ele estava totalmente isolado e tinha duas enormes preocupações, uma era a de evitar que bandeiras comunistas fossem desfraldadas, pois assegurava que 20% das forças armadas eram de direita, 10% de esquerda e o restante todo centrista. Ao lado desta preocupação de ordem política, existia uma de natureza militar, medo maior do que dos tanques, Mauro tinha dos paraquedistas, não sabia como a população reagiria. Vendo soldados descendo dos céus. Terminado o acerto, os representantes de Brasília retornaram a sua cidade e lá cumpriram a espera, aguardando a entrega do armamento que Borges havia prometido. Ao invés de armas veio um agradecimento e a afirmação de que ele não gostaria de ver jovens serem sacrificados. Enquanto o agradecimento era entregue os aviões lotados de paraquedistas cruzavam os céus de Brasília na direção de Goiânia.

        Nos últimos meses do ano, dirigentes comunistas, principalmente os do movimento estudantil, começaram a acordar da longa hibernação e o seu retorno, solidificou uma posição nítida na cidade. Em Brasília, em dezembro de 1964 haviam três correntes do movimento juvenil. Os que acompanhavam o castelismo, os comunistas e pela primeira vez na história brasileira havia um movimento juvenil Nacionalista, não constituído apenas por quadros, mas já com a visão de se constituir em movimento de massa.

        No princípio de 1965, os militantes profissionais do movimento comunista, de todas as cores e matizes, já haviam reassumido as suas atividades.

O PCB era atingido por críticas de todos os lados e como a classe média ainda andava de namoro aberto com o novo regime, a opção eleita pelo partidão, foi a de ativação quase que unicamente no campo cultural¸ pois havia se desmoralizado junto às camadas trabalhadoras   e continuava sendo achincalhado pelo fracasso que obteve, defendendo a sua famosa via pacífica de ascensão ao poder.

O PC do B, por outro lado comemorava e garantia ter sido a sua opção a única correta. Por um vazamento ou outro, chegavam notícias de que a Direção do Partido (o PC do B) estava selecionando algumas áreas para a eclosão de guerrilhas rurais. Existiam dúzias de locais já levantados e a turma da linha chinesa se vangloriava do fantástico contingente de quadros que havia formado nos últimos anos nas academias militares da China, Albânia e outros lugares onde tinha crédito. Diziam alguns que até oferta para formar pilotos de Migs eles haviam recebido da Coréia do Norte, só não se sabia bem a partir de que aeroporto iam decolar as esquadrilhas de jatos do PC do B.

  Brizola continuava prometendo guerrilhas e mais guerrilhas, pouco se importando que não tivessem viabilidade alguma. Sua preocupação principal era a de justificar os donativos  e verbas cubanas.

Em março de 1965, Brizola empurrou para uma aventura brancaleonesca o Coronel Jeferson Cardin. Sofreu fragorosa derrota, mas continuou  sem interrupção no seu guerrilheirismo incontrolável que desembocaria dois anos depois no desastre de uma nova tentativa, desta vez no Espírito Santo, em Caparaó.

        O Jovem Movimento Nacionalista, como não tinha donos nem tutores. Teve sorte e azar. Em contraponto a desvantagem de não ter experiência que lhes tivesse sendo transmitida, teve a vantagem (sem par) de usufruir da liberdade ilimitada de ler, pensar e discutir o que quisesse. Não havia índex e nenhuma idéia ou livro era proibido. Do “La Doctrina Peronista”, tiraram a afirmação que mais repetiam a época:

        O Peronismo  não é nem de esquerda, nem de Direita!

        Estava plantada a semente daquilo que uma década depois seria rebuscadamente rotulado como: Concepção Rômbica do Posicionamento Político e Ideológico.

        Em janeiro, a Seção Guanabara do MN, resolveu protestar contra a reativação do CPC, que instalado na antiga rua República do Paraguai, em Copacabana, abriu as portas do teatro de arena para os espectadores do show opinião. A peça tinha “delícias”, entre elas  a internacional tocada em ritmo de samba. O regime, dirigido por políticos amadores oriundos das casernas, estava totalmente despreparado para enfrentar a bilionária máquina que o movimento comunista internacional havia montado dentro no solo brasileiro.
Com o desmantelamento da União Soviética soube-se que no orçamento da URSS eram destinados, só no campo de agitação e propaganda, três dólares per capita anualmente às atividades do Movimento Comunista Internacional, com vistas ao abocanhamento do Brasil.
Mais, como dizíamos, naquele verão de 65, o regime operado por militares despreparados para enfrentar um inimigo do porte do entrave, nem se perturbou com o que estava havendo naquele teatro. Estava sendo dada ali o primeiro passo na caminhada ruma a deflagração da mais monumental campanha de doutrinação já desencadeada no Brasil.
Como dizia José Engenieros em El Hombre Mediocre: – A  Nação não se confunde com o povo, Nação é a parcela do mesmo que está consciente de sua origem e destino. Em certos estágios do processo civilizatório de um povo a sua parcela mais pura e íntegra, ou seja, a Nação que está gerando, é constituída apenas por um punhado.
          Solitariamente cumpriram seu dever perante a história meia dúzia de jovens militantes que escreveram seu repudio nos cartazes e fachada do teatro, após o que, telefonaram para as redações dos jornais informando sobre a realização do seu protesto.
O jornal O Globo publicou uma pequena foto e lhe deu o título de Mão de Piche  em Opinião.

 Na Revista da Editora Civilização Brasileira, uma das incontáveis publicações a disposição da bilionária máquina do marxismo tupiniquim, o protesto foi registrado como a investida de estudantes fascistas contra a cultura e atribuiu aos coitados dos incompetentes novos donos do poder (pejorativamente alcunhados de gorilas) uma competência que eles não tinham capacidade histórica e muito menos inteligência política para ter, dando uma dimensão ao gesto o mesmo não merecia. A pichação atraiu milhares de expectadores e serviu como estreia para a utilização de palcos das cidades brasileiras para a divulgação das propostas que seriam lançadas. Tudo nas barbas de um governo despreparado e inerme para se defender.

         A medida que os militantes liam descobriam o quanto esteve perto o Brasil, de ser anexado ao campo comunista e como tão por acaso havia sido o impedimento de que isto ocorresse.

A lenda que se criou depois (e que se repete até hoje) para substituir a verdadeira situação histórica do Brasil naquela época, ignorou o fato de que havia sido por muito pouco que não ocorrera a comunização do Brasil.

  1. Edgar Hoover, no seu livro Mestres do Embuste, enfatiza a importância que deve ser atribuída a maior ou menor porcentagem de membros de um partido comunista em relação ao contingente total de habitantes da nação em que se inseriram. No Brasil a proporção de comunistas militantes no partido era 60 vezes maior (!!!) do que havia sido na Rússia em 1917 quando da tomada do poder pelos leninistas. Somente Aarão Reis teve a coragem de tocar no assunto, mas não levou esta reflexão até o fundo e não a deixou suficientemente clara. A história de um grupo de garotinhos inocentes enfrentando um inimigo goliático ,  super preparado, apesar de ridícula prosperou e se transformou em  texto integrante da historiografia oficial.

         Em julho de 65 os jovens arregimentados pela ideia nacionalista, deram mais um grande passo. Criaram a organização que a partir daí defenderia as bandeiras que desfraldavam e denominaram Juventude Nacionalista que se tornou sinteticamente conhecida como JUNAC.

        No segundo semestre do ano, um grupo de estudantes, contatou a JUNAC em Brasília, era constituído basicamente por filhos de oficiais das Forças Armadas, que discordavam da orientação do governo castelista. Por meio dos filhos, os militantes da JUNAC contataram os seus pais. Eram pessoas simples que nunca conseguiram ir além de uma formulação doutrinária, jamais atingiram o nível de um patamar ideológico. O objetivo que tinham, de reformar tudo e sanar os erros do movimento de 64, derreteu-se na edição do Ato Institucional nº 2 e o prêmio de consolação que receberam foi um convite para as suas senhoras comparecerem a um chá com a primeira dama.

O convite que a JUNAC recebeu foi de outro anfitrião e bem menos doce do que um chá quente. Em janeiro de 66, um dos integrantes da Junta Nacional da JUNAC que morava em Brasília, mas se encontrava de férias no Rio, foi intimado a comparecer ao antigo ministério da fazenda, aonde funcionava uma agência do SNI, na Avenida Presidente Antonio Carlos. Recebido por um coronel do exército, nada amistoso, que lhe comunicou laconicamente, que as tentativas de estudantes nacionalistas de  contactarem militares não era bem vinda e não seria admitida e nem aceita pelo governo e que o General Golbery do Couto e Silva fizera questão de determinar, que todos os cabeças da JUNAC fossem rigorosamente acompanhados e punidos com a força necessária para que cessassem suas atividades.

Podemos garantir que Golbery realmente era um homem de palavra. Combateu o nacionalismo com todos os meios que tinha a sua disposição, mas para seu desencanto nunca obteve a vitória que pretendia nas duas décadas seguintes.

        Os Dirigentes Nacionais da JUNAC retrucaram  intensificando seu empenho e o primeiro resultado disso foi o contato com o capitão paraquedista Sósthenes Lustosa do Amaral Nogueira e o grande prêmio que a história deu a JUNAC foi o privilégio de assistir o nascimento do único grupo militar do período de 64 a 84 que conseguiu obter nível, densidade e galhardia idêntica a das forças armadas na primeira metade do século.

A primeira Brigada paraquedista foi a maternidade deste grupamento, lá nasceu a brava CENTELHA NATIVISTA .

Publicado em http://neimohn.blogspot.com/2011/07/resumo-historico-do-movimento_07.html revisado pelo Professor Paulo Fernando

Sobre o Colunista

Paulo Fernando

Paulo Fernando

Advogado, professor de Direito Constitucional e Eleitoral para concursos públicos nos principais cursos preparatórios do DF e ministra aulas no curso de Pós-Graduação em Assessoria Parlamentar no Centro Universitário do Distrito Federal (UDF).

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