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Terça Livre entrevista filha de Eduardo Cunha, que revela os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff em livro com o pai



 

O ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, lançou no último sábado (17) o livro “Tchau, querida”. A obra revela bastidores do processo que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Em 17 de abril de 2016 a Câmara dos Deputados aprovava o prosseguimento do processo de impeachment contra a petista. Simbolicamente, a data escolhida para o lançamento do livro do ex-deputado Eduardo Cunha foi 17 de abril. 

A coautora do livro e filha do político, Danielle Cunha concedeu entrevista exclusiva ao Terça Livre nesta quarta-feira (21). Ela comenta os arranjos políticos da construção de um segundo governo do PT em aliança com o antigo PMDB (hoje MDB), aborda a disputa pela presidência e pela relatoria da Comissão de Impeachment e a atuação do deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ) durante o processo. 

Danielle Cunha menciona ainda a existência de um acordo rompido entre o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o vice-presidente Michel Temer e Moreira Franco, que foi ministro de Minas e Energia e da Secretaria-Geral da Presidência de Temer. Franco também é sogro do deputado Rodrigo Maia. Cunha teria desagradado à “ala Temer”, o que culminou em seu processo de cassação.

Aliança PT-PMDB

“A aliança PT-PMDB é uma aliança histórica”, afirma Danielle Cunha.   “Politicamente, o PMDB e o PT tiveram um histórico de aliança. Era uma aliança que fazia sentido. A partir do momento em que o PT estava no seu momento de almejar a Presidência da República e assim ter uma caminhada exitosa, era natural essa aliança e, lógico, para o PMDB também era muito bom poder ter um vice-presidente na chapa”. 

De acordo com Danielle Cunha, essa aliança foi naturalmente construída, porque o PT precisaria de outro partido de peso na vice-presidência. O rompimento da aliança também teria sido natural.

“Qual partido de peso seria à altura do PMDB? Qual é a importância de um partido de peso? É a importância da governabilidade, da garantia das votações do dia a dia no Legislativo”, diz a coautora do livro.

Segundo ela, em um primeiro momento a aliança funcionou. No entanto, mais à frente, tornou-se disfuncional.  “Tanto que não é à toa, mais para frente, antes do impeachment, que o Michel Temer assume a articulação política e em dado momento — não sei se vocês vão lembrar — e ele escreve uma carta para a Dilma, uma carta pessoal que acaba sendo vazada, na qual ele coloca que se sentiu nos primeiros quatro anos um ‘vice decorativo’ [sic], que o papel dele não foi valorizado”, aponta. 

Danielle Cunha diz que a relação entre PT e PMDB não era espúria, mas deixou de dar certo quando o governo não conseguia mais governar. 

“O PMDB é um partido grande, que consegue trazer outros partidos de centro, em tese, e consegue junto com o governo garantir um número de êxito em votações, é simples assim, não é questão de interesse espúrio, essa aliança foi feita para que o governo pudesse governar. Quando não dá certo? Quando o governo não consegue governar”, explica. “Porque o governo, da maneira que estava, era ingovernável, ele não queria o diálogo, não buscava isso, e isso acabou gerando um rompimento natural, tendo o meu pai sido o precursor desse rompimento, mas outros, boa parte do PMDB embarcando, porque o governo era inviável”, acrescenta. 

“Quando eu digo que o governo era inviável não é porque um queria mais cargo do que o outro, não é isso. O país não ia para frente, não tinha votações, você tinha irresponsabilidades fiscais, um foco só em pautas ideológicas e na hora de votar pautas necessárias para a população, como a terceirização da mão de obra e a redução da maioridade penal, como a própria PEC da Bengala, que são alguns exemplos que posso citar aqui, o governo não tinha interesse em votar”, emenda a coautora de “Tchau, querida”, concluindo que o rompimento da aliança PT/PMDB foi natural diante da falta de governabilidade. 

Michel Temer adere ao impeachment

Outro ponto abordado por Danielle Cunha foi o momento em que o ex-presidente Michel Temer passou a apoiar o processo de impeachment contra a ex-presidente Dilma Rousseff. 

De acordo com a filha de Eduardo Cunha, Michel Temer assumiu a articulação política porque, conforme descrito na carta enviada à petista, sentia-se como um “vice decorativo”.

“Ele assume a articulação política e é sabotado pelo governo na articulação política. E a partir do momento que ele sofre essa sabotagem, ele passa a aderir ao projeto impeachment. Então ele é sabotado, sai da articulação política, escreve a carta para Dilma. O momento foi esse. O marco não necessariamente foi a carta, mas foi a sabotagem dele na articulação política, porque ele articula e o governo não cumpre os acordos”, salienta.

Páginas dedicadas a Rodrigo Maia

O deputado federal e ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), é citado em diversas páginas de “Tchau, querida”. Danielle Cunha relata que a vaidade e o caráter do parlamentar quase comprometeram o processo de impeachment.  

“O livro mostra como Rodrigo é uma pessoa volátil, egoísta, sem caráter, como atua em causa própria a ponto de estar quase comprometendo o impeachment pela vaidade do papel que ele queria exercer de destaque”.

Danielle Cunha explica que a relatoria e a presidência da comissão do impeachment ficariam entre o PTB e o PSD. O ex-deputado Rogério Rosso (PSD/RJ) ficaria com a presidência e o então deputado Jovair Arantes (PTB/GO) assumiria a relatoria. 

“Mas Rodrigo Maia bateu o pé e queria a presidência da comissão do impeachment. Os outros partidos, óbvio, não aceitaram isso. Então Rodrigo coloca em cheque o impeachment, dizendo que não iria apoiar se não fosse presidente”, pontua. 

Danielle Cunha afirma que o deputado Rodrigo Maia foi uma pessoa importante no impeachment, fazendo um trabalho com a oposição, mas ao mesmo tempo foi imaturo e precipitado.

“Tanto foi imatura e precipitada a decisão dele [de insistir na presidência] que ele se recolhe com o líder dele, o Mendonça [Filho] e 24 horas depois volta dizendo que aceita [não ficar na presidência]. É óbvio, se ele realmente chegasse a esse ponto [de assumir o cargo], mostra que ele conduziria o trabalho de forma não tão exitosa no tocante à conclusão do impeachment”, diz. O ex-deputado federal José Mendonça Filho (PE) foi líder do partido Democratas, e ex-ministro da Educação de Temer. Atualmente é consultor da Fundação Lemann, do bilionário globalista Jorge Paulo Lemann.

A coautora do livro também comentou sobre o episódio no qual Rodrigo Maia disse que o impeachment foi uma “vitória pessoal” do deputado Eduardo Cunha.

“Acho curioso quando Rodrigo Maia diz que o impeachment foi uma vitória pessoal da parte do meu pai, porque ele [Maia] está abdicando à biografia dele. Ele sempre lutou por isso e na última eleição foi eleito deputado federal com essa bandeira. É divertidíssimo ver pouco tempo depois ele dizer que não teve nada a ver com isso e que só teve impeachment porque meu pai tinha uma briga pessoal com o PT”.

Ainda de acordo com ela, Maia e o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP) eram as figuras que mais desejavam o impeachment. “Passado o episódio da birra pela presidência, durante o processo de impeachment Maia foi atuante”, comentou Danielle Cunha.

“Então o livro mostra a atuação do Rodrigo Maia ao longo do processo de impeachment não como crítica, mostrando ele sim como uma figura atuante. É uma pena que ele tenha optado, por uma questão de caráter, renegar o papel dele. Mas aí é uma questão dele com ele mesmo, e mais do que isso, depois ele [o livro] mostra a vaidade e ambição de Rodrigo Maia. O que acontece, ali no episódio que eu acabo de citar do pleito da presidência, o Rodrigo não perdoa. ele fica irritadíssimo com o meu pai”. 

Ainda de acordo com ela, Maia tentou ser o líder de governo de Michel Temer, mas o ex-presidente decidiu nomear o ex-deputado André Moura (PSC-BA).

“Nesse processo de impeachment você tem que angariar votos. Então Michel Temer tinha Eliseu Padilha atuando junto com ele no ‘front’, e meu pai tinha o André Moura atuando junto com ele no ‘front’. Esses dois tinham a responsabilidade de fazer a interlocução dos líderes com os deputados, conversar, pedir votos, enfim. Passa todo esse processo e o Michel Temer tem que nomear um líder de governo. O Rodrigo Maia novamente queria ser o líder de governo”, explica. 

“Porém, os demais líderes preferiram o André Moura, porque conviveram, porque viram o trabalho ativo dele e porque não queriam um líder de oposição. A gente não pode esquecer que mesmo atuante ele [Maia] era um líder de oposição e a oposição é muito inconstante”.

Segundo Danielle Cunha, sem conseguir a liderança do governo Temer, Maia faz “birra” e caça o deputado Eduardo Cunha. 

“Quando ele quer a liderança e não consegue, ele fica de birra. E ele vira presidente da Câmara e cassa meu pai de birra, usando as prerrogativas do regimento”, pontua.

Nos bastidores, atua Moreira Franco

O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, teria sido traído pela “ala” do ex-presidente Michel Temer, de acordo com Danielle Cunha. 

O analista político Carlos Dias indaga se a ligação entre o ex-ministro Moreira Franco e o deputado Rodrigo Maia, e a proximidade de Moreira Franco com Michel Temer, teriam relação com a pressão de Maia para ser líder no governo.

“Também, sem sombra de dúvidas”, responde Danielle Cunha. “Na verdade, a pressão do Moreira Franco no Rodrigo Maia mais foi feita e exitosa no momento em que o Rodrigo disputa e [se] elege à presidência. Rodrigo não teria competência para isso. Ali foi o Moreira Franco com o Michel Temer, o que foi uma traição ao meu pai, vale ressaltar. O combinado que eles tinham era outro”, revelou, sem entrar em detalhes. 

Eduardo Cunha teria, de alguma forma, desagradado à ala de Michel Temer, impulsionando a cassação de seu mandato. “Sem sombra de dúvidas, ali a influência do Moreira foi absoluta, mas mais ainda foi no momento em que o Rodrigo foi disputar aquele mandato tampão de presidente da Câmara”, declara Danielle Cunha.

“Ele foi traído pela ala do Temer, porque até então, no momento em que ele faz o impeachment, o maior beneficiário do impeachment é o Michel Temer”, acrescentou. Danielle Cunha revelou que o livro terá uma segunda parte que dará mais detalhes sobre a atuação de Rodrigo Maia como presidente do Legislativo.

Assista à íntegra da entrevista

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