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‘Tragédia que precisa ser investigada’, diz médico sobre estudo com doses tóxicas de cloroquina em Manaus

Francisco Cardoso Alves/ Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado


“Incontáveis pessoas morreram em virtude da má fama que esse estudo deu à cloroquina. É uma tragédia que precisa ser investigada”. Foi o que afirmou nesta sexta-feira (18) o médico especialista em infectologia do Instituto Emílio Ribas, Francisco Cardoso Alves, à CPI da Covid no Senado.

Para tentar desqualificar o uso da cloroquina no tratamento contra o vírus chinês, um estudo conduzido em Manaus por pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, da Universidade do Estado do Amazonas, Universidade de São Paulo e Fiocruz, usou superdosagem do medicamento nos pacientes. Vinte e duas pessoas morreram. 

A pesquisa analisou 81 pacientes com síndrome respiratória aguda grave. Para a dose maior do medicamento, os pesquisadores disseram ter aplicado a mesma dose usada em pesquisa feita pela China. 

Entretanto, de acordo com o médico Francisco Cardoso Alves, existe diferença na quantidade de miligramas entre a cloroquina utilizada pela China (fosfato de cloroquina) e a droga brasileira. 

“Os chineses deram um grama de fosfato de cloroquina, que equivale a 620 miligramas de cloroquina base e, aqui no Brasil, deram 620 miligramas da base, vezes 2. Deram 1.200 miligramas de cloroquina base, o que equivale a 241 miligramas, vezes 4, vezes 2”, explicou.

O médico acrescentou que, na prática, o estudo de Manaus deu o dobro da dose do estudo chinês para pacientes graves, sendo que a bula da cloroquina alerta que deve-se evitar a administração de mais de 1.500 mg por três dias seguidos. 

“No estudo de Manaus, e isso está no próprio estudo, eles deram 1.200 mg de cloroquina base por dia para os pacientes, sendo que a própria bula da cloroquina fala que deve se evitar dar mais de 1.500 mg em três dias seguidos. Eles deram para esses pacientes 3.600 mg de cloroquina em três dias. Sete pacientes morreram em três dias”, disse.

Outro detalhe, de acordo com o médico, é que as mortes não foram por Covid. 

“Esse estudo era randomizado, isso quer dizer que ambos os braços tinham o mesmo grau de risco, tinham seus fatores de risco equilibrados. O único diferencial foi a dose quase letal e, em alguns casos letal, de cloroquina no grupo de alta dose, e isso foi achado [sic] que teve relação de evento de arritmia e mortalidade, com significância estatística. Isso está escrito na revista”, explicou.

“Eles publicaram o estudo dizendo que o que causou a morte foi a dose elevada de cloroquina e, por isso, cloroquina é uma dose insegura, seria ineficaz. Daí se extrai toda a narrativa por trás de uma droga que sempre foi segura”, acrescentou. 

O estudo ainda acarretou na má fama da cloroquina a nível mundial. Vários pesquisadores, sem se atentar ao fato de que houve superdosagem no estudo, passaram a refutar a cloroquina, segundo o infectologista. 

O médico também afirmou que a regulação de pesquisas precisa ser revisada no país. 

“É uma vergonha para a ciência nacional e deveria ser alvo de apuração não para caçar a pessoa ou punir. Tem que ser revisado todo o processo científico no Brasil, inclusive a CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) que autorizou esse estudo com dose tóxica. Tem muita coisa errada com relação à regulação de pesquisa nesse país”, finalizou.

O doutor Ricardo Ariel Zimerman, que também esteve na CPI hoje (18) e é médico infectologista, acrescentou que a dose usada no estudo de Manaus equivale a 20 doses utilizadas no tratamento para malária dadas ao longo de dez dias.

“E os estudos de farmacocinética mostram que nessas doses o paciente fica sob dose potencialmente letal metade do dia, metade do intervalo dose acima de 10 micromol litro”, pontuou.

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